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Artigos de Colaboradores
"Remédios do Mar"
Publicado em 22/4/2007
Por Edson Ferreira Sampaio*
O mar é ambiente enorme, aliás, quatro quintos da superfície terrestre, fonte ‘inesgotável’ de tudo que se considera e não é diferente em termos de fonte de remédios homeopáticos, entretanto, quantos são realmente conhecidos? Calcarea carbonica (ostra), Sepia (lula), Natrum muriaticum (sal marinho), ou seja, a própria ‘Água do Mar’ submetida à evaporação... Dos demais - quantos seriam? -, pouco se fala e menos ainda se sabe!

Há remédios, como p.ex, o Óleo de Fígado de Bacalhau, tradicionalmente usado e conhecido, porém, raramente nos ocorre que sua fonte é um animal marinho, portanto, deve haver similaridades com os citados acima. Não é difícil imaginar que animais desse ambiente tenham coisas em comum: comportamentos, estratégias de sobrevivência, aliás, para Sankaran seria o grande tema referente ao Reino Animal, decorrendo dele todo o drama animal: subsistir como indivíduo, reproduzir (manutenção da espécie), o que inclui manter o sistema atuante e capaz de produzir semelhantes.

O mesmo vale quando falamos de um grupo de animais que usa veneno para alimentação e para defesa –caso das serpentes, animais que não têm pernas, utilizam movimentos coleantes para o deslocamento, o que os torna relativamente lentos e que preferem, na sua alimentação, animais muito rápidos – roedores, por ex., tendo que desenvolver técnica específica de caça -a emboscada-, diferente, por ex., de outros animais capazes de deslocamento mais rápido do que sua presa. Diferente, também, das aranhas que tecem armadilhas, redes de captura.

É quando entra em cena MASSIMO MANGIALAVORI, homeopata italiano contemporâneo, homem de grande inteligência, simpatia e comunicação, o qual, desde o início de sua carreira como home-opata, estranhou que usássemos tão poucos remédios -os ‘policrestos’-, desprezando a imensa maioria de remédios constantes dos Repertórios e Matérias Médicas, referidos como ‘pequenos’, ‘pouco estudados’, ‘pouco conhecidos’ e cuja característica em comum é o fato de terem poucos sintomas catalogados.

A partir dessa observação, usando de forma inteligente os Repertórios disponíveis e da poderosa ferramenta que é a informática –fator que possibilitou o avanço no estudo da homeopatia para a maioria dos homeopatas modernos-, e, sobretudo, utilizando a arguta observação de seus próprios casos clínicos, chegar ao conceito de “Família dos Remédios”: agrupamento no qual há estrutura e significação entre seus ‘parentes’, permitindo reconhecer, a partir da observação clínica, que um determinado doente –por suas formas de expressar, de se comportar, por seus gostos, sonhos, formas como se diverte, como vive seus ócios, sua profissão... tudo levando a um referido grupo... àquela família.

O que nos permitiria prescrever um determinado remédio de uma família seria seu grau de similari-dade com o doente. Exemplo do próprio MASSIMO: Um doente reagiria bem a Arnica – policresto, paradigma da família das Asteráceas (antes Compositae), as populares ‘Margaridas’. Reagiria melhor e por mais tempo com Bellis perennis, melhor ainda com Opium e mais ainda, entretanto, com Latusa virosa (‘Opium frigidum’). Haveria modificações profundas e eventual cura de moléstia considerada até incurável, pois estaria reagindo frente ao próprio similimum. Vem SANKARAN com seu notável “Insight into Plants”, intersectando os elementos da família com características miasmá-ticas, ou seja, para ele, o grau de desespero do doente, classificando-o a partir do ‘agudo’, passando pela ‘tifóide’, ‘psora’, ‘ringworm’, ‘malária, ‘sicose’, ‘câncer’, ‘tubercular’, ‘lepra’ e finalmente, o auge do desespero, a ‘sífilis’ auto e heterodestruidora.

—Ah! Diria o sagaz leitor, tudo isso é relativo! Certíssimo, como tudo o mais na vida. Aliás, nenhum desses autores, e muitos outros estudiosos, alegam terem encontrado o substituto para a pólvora. Ao contrário, clamam à compreensão do leitor, alertando que seus estudos estão em avanço e sujeitos a modificações e aperfeiçoamentos.

Portanto, estabelecido que o doente à nossa frente está muito envolvido com sua ‘sobrevivência’ e que ele pode fazer parte de uma família de animais, o passo seguinte seria perceber qual delas? Mamíferos, répteis, canídeos, aracnídeos, do mar... o que já caracteriza um certo método, porém, apenas ouvindo o relato, estimulando delicadamente aqui e ali com perguntas como: que mais? Não entendi? Explique melhor? Por que? Como seria isso... Jamais o enfiando num grupo, meio à força, onde poderia até não ser bem recebido!

De volta ao Mar: Curioso em relação a esse ambiente é que, apesar de sua composição extrema-mente complexa, abrigando até mesmo substâncias extraterrestres oriundas do espaço via meteoritos, a proporção desses elementos todos é constante, inclusive sua salinidade, luminosidade, temperatura... variam enormemente conforme a região do planeta, porém, em pequenas áreas são fatores de variação mínima. Isso tem conseqüência interessantíssima em relação aos seus habitantes: a necessidade mínima de movimentação em busca do alimento, alguns até fixos, coisa impossível aos animais terrestres. Para os marinhos se pode dizer que o alimento lhes vem à boca. Exemplo seria a lagosta que permanece toda a vida num raio de alguns metros quadrados.

A reprodução também é muito simplificada: a fêmea põe os óvulos na água, o macho, ‘en passant’, espalha seu esperma e cada um vai cuidar da vida sem preocupação com gravidez, parto, cuidado com filhotes, registro, escola... totalmente diverso dos animais terrestres que precisaram evoluir muito até ao coito com suas complicações extremas nos seres humanos que vai do ritual do acasalamento à indústria pornô, prostituição, divórcio, advogados, pensões alimentícias...

Outra vez, de volta ao Mar: tudo isso faz dele um AMBIENTE SEGURO em muitos de seus aspectos: ‘tema geral’ dos animais marinhos e das pessoas a quem convém um remédio feito a partir desse grupo. Exemplo: as ‘Calcareas’ –ostra- cujo ‘tema fundamental’ é o desejo de permanecer num ambiente seguro, protegida por uma crosta espessa e dura, ciente de sua fragilidade interna, de sua condição de animal indefeso, caso sua concha seja aberta, quando é engolida com limão e cerveja, descendo pela garganta sem a menor resistência e nem gosto, tudo em nome de um mito de que é afrodisíaca, a pobrezinha que jamais pensou em sexo! A bem da verdade, as calcareas têm aversão até em serem olhadas. Seus temas gerais são: sensação de fraqueza, solidez / prote-ção / retenção, insegurança / timidez, irritabilidade / descontentamento / má vontade... Não é difícil imaginar que animais como esses queiram estar num ‘útero’ onde as condições sejam ideais durante toda a vida. Considere o exemplo dos corais que sobrevivem apenas a temperaturas entre 16 e 30 graus! Não admira também que entre esses seres impere a HIPER-SENSIBILIDADE – necessidade de harmonia, calma, beleza, pessoas conhecidas e confiáveis ao redor. Resumindo: um ambiente o mais seguro possível.

Outra curiosidade é que alguns ‘doentes/remédios do mar’ gostam de mostrar sua independência, o que é fundamental para alguns deles, como exemplo Sepia cuja liberdade é fator importante, pois depender é sinal de fraqueza, sujeição. Já para Spongia, Corallium rubrum (menos evoluídos) que vivem presos a um suporte, pouco importa ser independente. Esse tema seria geral para alguns remédios e fundamental para outros, embora presente em todos.

Portanto, a idéia é juntar, com lógica, um GRUPO COERENTE DE SINTOMAS, ou seja, aquele que expressa as características de um determinado agrupamento ou... família. São sintomas que dão a ela estrutura e significação e quel tem um TEMA GERAL: modalidade(s) característica(s) da família, ou grupo coerente de sintomas específico da mesma.

Nessa família, os ‘parentes’ teriam um TEMA FUNDAMENTAL, que lhe daria especificidade, fator sine qua non para a prescrição correta do remédio, sem o qual não haveria como aplicar a lei da similaridade em nível profundo, ou ainda, modo de ser, estratégia, ‘essência’ (para Vithoulkas). Exemplos, para clarear: Sepia –insatisfação, independência, congestão passiva. Calc-c: dependência, ambiente seguro, imaturidade, ameaça. Medusa: estética e arte. Os Natrums já teriam uma mistura de incompreensão, vergonha, vexação, misantropia, romantismo, apatia. Portanto, o tema fundamental, na realidade, é composto de temas secundários, complementares.

Tudo isso deixa claro que não nos seria mais possível receitar a um doente Sepia na primeira consulta, Tarêntula na segunda e pular para Sulphur na terceira... Uma vez numa família, solidamente ancorados, poderíamos ir de um ‘parente’ a outro. Talvez, até por isso tenha surgido a idéia de complementaridade entre os remédios, o relacionamento entre os mesmos. Ex. Sepia seria o ‘anti-depressivo’ mais parecido a Nat-m!

Em resumo, os REMÉDIOS DO MAR teriam um ‘jeitão’ assim como são inconfundíveis os gaúchos, os cearenses, os cariocas... Descobrir isso é nosso desafio frente ao doente.

E a repertorização, onde fica? Repertório e Matéria Médica são fundamentais, confirmam o remédio, permitem o diagnóstico diferencial, contudo, ainda que fundamentais, são incompletos e podem conduzir a enganos.

Essas idéias não são minhas, o que lamento! Todas elas, e muito mais, pertencem a MASSIMO MANGIALAVORI e estão em seu livro “REMÉDIOS DO MAR’, já disponível em português”.


Edson F. Sampaio
sampareb@uol.com.br










* Edson Ferreira Sampaio é médico-homeopata, estudante de homeopatia.

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