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De Cães e Lobos
Publicado em 6/9/2007
Por Edson Ferreira Sampaio* |
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"Cães e lobos são similares, no sentido de que ambos são animais de bando, matilha, na qual existe apenas um líder e, com freqüência, lutas entre seus membros, para decidir quem é o chefe. O combate termina quando um dos animais está sobre o outro, com o submisso deitado sobre as costas. O dominante coloca sua pata sobre o peito do outro e -até que o este deixe de olhar para o vencedor-, a luta continua. Tão logo este desvie seu olhar, significa que admitiu a derrota e o novo chefe da matilha está eleito”.
O texto acima parece tirado de um livro de veterinária, certo? Errado! Trata-se de um longo estudo da “ PRISMA – The Arcana of Materia Medica Illuminated – Similars and Parallels Between Substance and Remedy” do notável FRANS VERMEULEN, homeopata holandês, muito meticuloso, num belíssimo estudo sobre LAC Caninum.
Pensei em publicar isto, ao ler o artigo da Dra. FERNANDA PECORARO, verterinária-homeopata, no exemplar de agosto do HOMEOjornal: “Estudo do Comportamento Animal na Homeopatia”. É sua interrogação se seria tal estudo relevante na especialidade. A resposta é sim, e muito! Ao menos se considerarmos os autores mais modernos da literatura homeopática: Mangialavori, Sankaran, Jan Scholten e, claro, o próprio Vermeulen, para citar alguns.
Belo insight da Dra. Fernanda! Até parece raciocínio de Massimo Mangialavori em seus estudos sobre os animais marinhos, cobras, aranhas (‘famílias’). Da mesma forma, o fantástico estudo de outro holandês notável, Jan Scholten, sobre os elementos da Tabela Periódica, sais, ligas metálicas...
São estudos que incluem não só a biologia e outras ciências, assim como a antropologia, mitologia, uso tradicional (popular) de remédios, xamanismo, arqueologia, astrologia, enfim, tudo que possa trazer clareza ao estudo de determinado remédio, dando-lhe vida e facilitando o estudo da matéria médica, mudando de árido para algo interessante. Mangialavori diz que nosso Repertório e Matérias Médicas, embora fundamentais, são como listas telefônicas: fornecem nome, endereço e número, mas nada dizem a respeito das pessoas arroladas. O conhecimento de outros estudos torna um grupo de sintomas em remédio / pessoa com vida própria e personalidade.
Vale citar, ainda, a “Doutrina das Signaturas” – as substâncias teriam sinais e aparência que nos levariam a determinado uso medicamentoso - muito usada por alguns estudiosos da Matéria Médica, embora outros, mais conservadores, torçam o nariz, sob alegação de que não se trata de homeopatia. Quem a utiliza justifica que não se trata de usar conceitos primários como o de que plantas de flores amarelas atuariam nos casos de icterícia. Na citação acima, vê-se que o fato do cão vencido não encarar o vencedor, sinal definitivo de sua derrota, de submissão, é sintoma encontrado no Repertório: “Sente-se olhada de cima...” (Mind, Delusion – looked upon down, she is), em cuja rubrica lá está Lac caninum. Não seria isso ‘signatura’? Não basta o indivíduo estar ali, de costas, pernas e braços abertos, a barriga, -sua parte mais vulnerável- exposta, com poucos pelos, pele fina, sem ossos! Sem falar na exposição dos genitais, bem ali pedindo uma dentada castrativa... melhor olhar para outro lado! Que se vão os anéis, poupemos os... dedos!
O cão, antigo lobo, predador, feroz, agora domado, domesticado pelo homem que o fez suprimir toda ferocidade e agressividade, levando-o ao extremo de dizerem que “a felicidade do cão é o olhar do dono” (chefe).
Outro exemplo, do próprio Vermeulen: “O cão, como os lobos, antes de deitar, rodeia sobre si próprio amassando a grama e diminuindo as possibilidades de ser surpreendido por uma cobra”.
Lavar as mãos freqüentemente, tentando livrá-la do que é sujo, impuro, como fez Pilatos, fazendo pensar em algumas culturas nas quais o cão é considerado animal imundo.(Mind- washing, hands; always washing her – Lac-c, em destaque) Nessas, chamar alguém de “sangue de cachorro” é ofender toda linhagem do indivíduo. Ainda, “Son of a bitch” ou “Filho da... cadela” – grande ofensa entre nós para quem não se deve colocar mãe no meio de conversa fiada. Pode dar briga! Repertório: “Mind, delusion – prostitute, she is” – Lac-c presente!
No outro extremo: Os Dominicanos são padres que assim se denominaram: Domini cani = cães de Deus, ou ainda, Franciscanos, cães de S.Francisco: fiéis, alerta, guarda, mordendo se necessário!
Para terminar, que fale Vermeulen: “Gente-cachorro: algumas pessoas crescem para se tornar como seus cães: São cinco tipos: (1) o confiável, equilibrado, com grande intuição o que faz dele parceiro leal e amigo compreensivo. (2) O rabugento, rosnador, grosseiro, superprotetor e que passa seu tempo farejando outras pessoas “ (seria um policial?) “(3) O ‘cão sujo’. (4) A vira-lata, cheia de ganidos, barulhenta que exibe tudo o que significa “cadelice”. (5) O puxa-saco, untuoso, cara-envergonhada (ambos os sexos), exibindo devoção canina e cujo objetivo primeiro na vida é ser aprovado pelos outros. Todas pessoas que vivem sua cachorrice”. Seria o (6) caso daqueles que andam de camiseta ‘mamãe-sou-forte’, malhados, poderosos, rebocados por seu ‘pit-bull’?
“O essencial, se temos que evitar a ‘possessão-cachorra’ e ‘doença-de-cachorro’ é des-identificarmos com o arquétipo do cão, cuja melhor atitude para curá-la seria, provavelmente, do cego com seu guia: apenas deixar-se conduzir, confiar em sua capacidade para guiá-lo e no poder em guardá-lo, certo de que ele sempre sabe o caminho”
Dá para imaginar a vastidão e beleza do estudo de tudo aquilo que podemos transformar em remédios?
sampareb@uol.com.br

* Edson Ferreira Sampaio é médico-homeopata, estudante de homeopatia.

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