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RECADO AOS ESTUDANTES
Publicado em 17/11/2007
Por Edson Ferreira Sampaio* |
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Traduzi este artigo do site www.hpathy.com, autorizado pelo autor, DR. MANISH BATIA, homeopata indiano, Editor-Chefe de Hpathy (Homeopathy 4 Everyone) por seu equilíbrio, informações e necessidade que nos situarmos frente aos novos autores, informações e métodos, quando nossa especialidade, após muitos anos de letargia, avança em novos campos e pesquisas, somando conhecimentos de outras ciências.
"Caros Estudantes de Homeopatia!
Este editorial é dedicado apenas a vocês... e desejo compartilhar partes de minha própria experiência como estudante.
Muitos de nós começamos a carreira em homeopatia não por escolha, mas por acaso. Ou somos empurrados nesse misterioso mundo testemunhando uma cura ‘milagrosa’, ou, em países como Índia e Paquistão, pela ‘corrida de ratos’ (1) para chegar a serem ‘doutores’. Quando alcançamos o Colégio (2), muitos de nós não temos a menor idéia a respeito da qualidade e quantidade de informações que receberemos. A falta de uniformidade e padrões na educação homeopática torna a tarefa de avaliar essa formação mais difícil ainda. Alguns de nós (muito poucos) temos sorte de conseguir bons mentores a mostrar a trilha correta. Para muitos outros, aprender homeopatia é caminhada morro acima e, com freqüência, muito frustrante.
Na índia, o foco da educação homeopática baseia-se em assuntos ‘aliados’ (anatomia, fisiologia, patologia...) e mesmo após consumir cinco anos e meio no Colégio, muitos estudantes saem ‘crus’, no que concerne à habilidade de praticar a homeopatia. Às vezes, falta a educação clínica ou estudantes passam a observar prescritores de sintoma-único, que atendem cem pacientes num dia. Noutras vezes, já no início de sua prática, ficam expostos aos multi-remédios ou combinações deles (complexos). É uma corrida maluca: vai-se de uma aula para outra, de uma conferência a outra, de um professor a outro que o sobrecarrega com matérias a serem estudadas para exames.
Há muita pressão em formar um “doutor” mas quase nenhum foco em ensinar a precisa arte da tomada do caso, que exige paciência e habilidade de observação. A mente não é treinada a ver além do diagnóstico alopático ou keynotes dos policrestos. Há tanta atenção na rotina do aprendizado, que muitos estudantes passam quase seis anos em colégios e ainda não conseguem a compreensão dos trabalhos básicos de Hahnemann, Boenninghausen, Farrington, Kent, Lippe... Grande parte deles não tem a menor idéia dos trabalhos de Vithoulkas, Shepper, Little, Sankaran, Sherr, Scholten, Mangialavori, Ramakrishnan e outros.
Fora da Índia, a história também não é encorajadora. Há cursos que variam de meio fins-de-semana a cursos regulares de seis anos. O currículo é projetado por homeopatas individualmente e com quase nenhuma uniformidade de ensino. Há escolas que ensinam primeiro-socorro homeopático, outros com atenção voltada à, assim chamada, homeopatia clássica, outros ainda fortemente influenciados por uma ‘escola de pensamento’ ou ‘autor’ ou ‘método’ – sejam eles Boenninghausen, Kent, Sankaran, Scholten... O ensino da medicina é, com freqüência, inexistente. Novamente, muito saem de suas escolas ‘meio cozidos’!
Minha história não foi diferente: fui empurrado para a homeopatia pelo destino. Como qualquer outro médico-aspirante na Índia, também queria ser um médico alopata. Contudo, meu pai costumava nos dar remédios homeopáticos, embora eu não tivesse quase que a menor idéia do “que é a homeopatia’. Porém, tendo o destino me forçado nessa corrente, comecei a apreciá-la. Apaixonei-me pelo Organon e o devorei com zelo – provavelmente, dúzias de vezes nos meus anos de colégio. Em geral, contudo, também envolvi-me na ‘corrida’ para me tornar ‘doutor’: Empanturrei-me de anatomia, fisiologia, patologia, medicina legal, ginecologia, clínica médica e todos os outros assuntos médicos, ano após ano. O aprendizado da homeopatia ficou limitado a ‘assaltos’ à matéria médica para realizar provas, através de ‘perguntas / respostas’ sobre o Organon e o Repertório.
Ocorreu-me, como vantagem, que desde os primeiros anos tive acesso a computadores, Internet e revistas internacionais . Isso me levou a aprender mais dos autores ‘modernos’ e idéias que não eram ensinados em nosso Colégio. À época, talvez eu tenha sido o único a ter ciência de que existiam George Vithoulkas, Rajan Sankaran, Jeremy Sherr, Jan Scholten, A.U. Ramakrishnam e outros autores ‘populares’ do nosso tempo. Raciocinando, para muitos outros estudantes, era como se eu vivesse num ‘poço de homeopatia’, cujas paredes consistiam do currículo e ‘idealogias’ dos nossos professores. Não nos era permitida experimentar o mundo fora desse poço.
Em frente! Sempre estive entre os estudantes de mérito, entre os melhores. Mais ainda, em comparação com aos colegas, meus conhecimentos de Hahnemann e muitos autores modernos eram melhores. Da mesma forma, clinicamente, aprendi com colegas que eram muito bem sucedidos e que atendiam cerca de 120 pacientes por dia. Tudo isso me levava a crer que eu seria muito bem sucedido. Pensava que sabia tudo! Estava tão confiante em meu sucesso que, antes de abrir meu consultório, certa vez disse a meu pai: “Pai! Só espere para ver: em seis meses haverá fila em minha sala de espera!”
Só que eu estava errado! O primeiro mês de minha prática ‘independente’ me fez entender que ‘curar’ pessoas era coisa inteiramente diferente. A prática não é fácil como a teoria! As ‘curas’ não são freqüentes como pensara. Eram casos e casos nos quais me via atrapalhado com a escolha do remédio, potência, repetição, avaliação da resposta ao remédio. No final do primeiro mês, senti que havia perdido tantos anos de colégio e que eu mal sabia coisas a respeito de curar ou conduzir um caso adequadamente. Senti escuridão em torno e, nos primeiros seis meses, perdi a maioria dos meus pacientes!
Nessas horas de confusão, raiva e frustração fui o Organon. Cada vez que me sentia ‘pra baixo’ e confuso, lia Hahnemann e tornava à clínica cada vez com mais vigor. Além dele, lia os outros clássicos e também a maioria da literatura moderna. Dessa forma, comecei a aprender com os meus fracassos. Cada caso passou a ensinar-me o que os professores não conseguiram. Minha obstinação em não usar complexos me fez trabalhar cada vez mais nas raízes homeopáticas. Eu queria ‘curar’ e não apenas ‘paliar’. Apeguei-me à filosofia hahnemanniana desde os primeiros anos de estudo e sete anos depois queria experimentá-la na prática ou desistiria!
A teimosia e o trabalho duro começaram a pagar dividendos. Entre montes de insucessos surgiram alguns clarões, embora poucos e distantes uns dos outros. À procura de melhores resultados, tentei cada ‘novo’ método. Quando assisti o primeiro seminário do Dr. Sankaran, fiquei impressionado com seus vídeo-casos e ‘interpretação’ dos gestos e temas. Tentei usar, em minha prática, sua detalhada tomada de caso e avaliações. A primeira consulta, para mim e meus clientes, era maravilha... Mas, a prazo longo, meus resultados não melhoraram. Explorei o método de Dhawale, usei a teoria da supressão dos agudos de Vijayyakar, a tautopatia de Patel, o protocolo do câncer de Ramakrishnan, ‘novos remédios, remédios ‘únicos’, protocolos de alta potência, ‘começo com baixa potência e aguardar reação’, potência 30ª três vezes ao dia, potência 200ª mensalmente, potência 200ª três vezes ao dia e, porque não, usei tudo que pudesse me levar a prescrição e resultados melhores.
A cada ‘novo método’ sentia-me jubiloso e iluminado, após o que vinha a fase de desapontamento e desilusão. Foram alguns anos para entender que a resposta aos meus problemas não estavam fora de mim. Entendi que meus fracassos vinham das minhas próprias incapacidades. Não podia fazer como Sankaran apenas lendo seus livros porque não estava em seu nível. O mesmo ocorria com Vijayakar e outros. Compreendi que essas pessoas colhiam resultados de suas abordagens porque estavam solidamente ancoradas em seus conhecimentos de Homeopatia. Seus conhecimentos de Matéria Médica, Repertório e Tomada do Caso estavam muitos além dos meus e, talvez, somente após vinte a trinta anos de prática é que estavam aptos a fazer o que faziam.
Compreendi que, antes de trabalhar com esses níveis mais elevados, precisava reforçar minhas raízes nos níveis mais baixos. Comecei a observar meus pacientes mais de perto, voltei ao meu repertório e matéria médica – voltei a trabalhar de modo mais básico e... meus resultados começaram a melhorar. Comecei a enxergar porque meus remédios estavam operando e porque havia falhado em alguns casos. Nessa altura, comecei a ler os trabalhos de David Little e Luc De Schepper. Os trabalhos desses dois homens influenciaram muito minha prática. Permitiram que visse mais claramente as palavras de Hahnemann. Parecia-me com alguém saindo de um nevoeiro. Passei a me preocupar menos com as ‘limitações’ do método clássico e a me tornar mais confiante nos meus resultados em conseqüência a melhores conduções dos casos. Comecei a usar formar líquidas e potências LM e, de repente, havia estava conseguindo uma nítida mudança nos meus resultados. Não havia antes experimentado nada tão positivo. Percebi que os verdadeiros horizontes da homeopatia clássica, os policrestos, tomaram um significado diferente e usar os remédios menores agora era muito mais fácil.
Vi meus primeiros pacientes há mais de dez anos atrás. Nesses anos, evoluí muito como homeopata. Hoje, posso usar os novos métodos, seja Sankaran, Scholten, Sherr, Bentley, Ramakrishnan ou qualquer outro, com facilidade, porque estou confiante em minhas raízes ‘clássicas’. Posso dispensar a um caso cinco minutos ou duas horas de consulta, contudo, a seleção do remédio é muito mais clara e a condução do caso é muito mais fácil porque sei que meus pés estão firmemente ancorados no que é básico.
Haveria muito mais de minha estória homeopática e que poderemos compartilhar noutra hora. A razão pela qual expus tanto de mim é por não querer ver outros estudantes tateando no escuro, como me ocorreu. Não me importo de aceitar minhas falhas e fracassos para que possam aprender com meus erros. Não há necessidade de viver as mesmas incertezas. A homeopatia não é tão complicada com pode parecer à vista de tantas escolas de pensamentos. Há um meio definido de aprender e praticar a homeopatia e que garante bons resultados. Eis aqui o que acredito que poderá lhes dar boa oportunidade de sucesso como homeopatas:
• Leiam cada palavra de Hahnemann e outros mestres, muitas vezes. Nada, absolutamente nada, pode substituir as bases e sabedoria dos fundadores. Seus métodos ainda funcionam na maioria dos casos. Não há necessidade de idéias fantasiosas para chegar a curas significativas. • Aproxime-se de um bom mentor e que NÃO atenda cem casos num dia. Encontre alguém que dê tempo aos seus pacientes, que lhe ensine a importância da paciência e da observação. Que ensine o valor da humildade, que o ajude a evoluir como ser humano, que ele próprio seja um bom ser humano, uma alma gentil – um verdadeiro Guru! • Tenha boa base na medicina moderna. Isso lhe dará confiança em lidar com casos complicados e a diferenciar o comum do incomum. • Compreenda bem e não apenas aprenda os remédios comuns. Eles ainda podem curar a maioria de nossos pacientes. Mais ainda, você é tolo se tentar entender a essência da família das Compostas enquanto sequer recorda o que é básico em Arnica e Bellis-perennis. • Compreenda cada rubrica dos nossos repertórios. É trabalho duro, mas que recompensa no final. Com mais de 100.000 rubricas e mais de 3.000 remédios em nossos repertórios não será possível curar muitos casos se não souber quais são as rubricas corretas e onde encontrar as informações adequadas. • Aprenda a arte de tomar o caso e avaliar a direção. • Aprenda: “Quê fazer após dar o remédio”? – a condução do caso. Você poderá falhar na maioria dos casos, mesmo dando o simílimo, se não souber conduzi-los adequadamente. • De início, conserve a simplicidade. Não esqueça que os métodos de Hahnemann e nosso bloco principal de remédios ajudaram milhões de pessoas nos últimos duzentos anos. Não fantasie já de início. • Somente após estar confiante em suas bases, explore os novos métodos, sistemas e trabalhos. São ferramentas a serem adicionadas ao seu armamentário, mas que não poderão repor as bases da homeopatia. • Procure não seguir apenas uma escola de pensamento. A maioria dos trabalhos modernos tem seu próprio lugar em nosso ferramental. Esteja aberto. Ajuste seu método de anamnese (tomada do caso), seleção e avaliação do remédio de conformidade com as necessidades do caso em mão. Aprenda a individualizar! • Se tiver que seguir novo método, aprenda-o bem a partir da fonte ou de alguém que o pratique há longo tempo. Não experimente em seus pacientes apenas após ler um novo livro ou após assistir um seminário de fim-de-semana. Os novos métodos só funcionam bem quando bem conhecidos. De outra forma, a frustração é convidada! • Por último, mas não menos importante: Continue aprendendo com seus fracassos! Não feche os olhos a eles, não hesite em aceitá-los, não se envergonhe de pedir opinião a um colega. Não se aqueça à glória de poucos êxitos acidentais. Mantenha-se humilde e saudável. Um bom homeopata deve ser um bom ser humano. Quem está doente não pode comunicar saúde.
A jornada do homeopata nunca termina, pelo menos até que ele ‘pendure as chuteiras’. Mesmo após anos de prática, ainda surgem aqueles momentos de ‘Aha!’. Ainda continuo aprendendo, porém, hoje muito mais confiante em meu trabalho e sistemática. Espero que vocês aprendam dos meus erros e sigam a senda que encha sua vida de satisfação, felicidade e paz.
Desejo-lhes muito sucesso na busca de ser um melhor ser humano e homeopata. Pode escrever-me para editor@hpathy.com Sinceramente, (ass) Dr. Manish Batia."
(1) Corrida de ratos: Competição insana, como nos negócios. Pejorativo à competição entre indivíduos. (NT) (2) Colégio: Curso formador de médico-homeopata na Índia e Inglaterra. Geralmente, o médico coloca, após o nome, as letras: BHMS – (Bachelor Homeopatich Medicine and Surgery (NT)
Edson F. Sampaio – sampareb@uol.com.br

* Edson Ferreira Sampaio é médico-homeopata, estudante de homeopatia.

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